Um levantamento publicado pelo Unicef nesta segunda-feira aponta que um contingente expressivo de gestantes brasileiras que manifestam a preferência pelo parto normal acaba submetido a procedimentos de cesariana que carecem de justificativa clínica. Esse cenário é impulsionado por entraves como a escassez de orientações esclarecedoras ao longo do acompanhamento pré-natal, o envolvimento reduzido dos companheiros no processo e a dificuldade de acesso a métodos de analgesia para o controle das dores. Atualmente, as cesáreas respondem por 60% de todos os partos ocorridos no território nacional, índice que se eleva drasticamente para patamares próximos a 90% quando analisados estritamente os atendimentos realizados no sistema privado de saúde.
Diante desses indicadores, a especialista em saúde e nutrição do Unicef no Brasil, Stephanie Amaral, observa a existência de um distanciamento significativo entre o desejo inicial da gestante pela via de nascimento natural e a decisão que é concretizada na prática. De acordo com a análise da profissional, há um conjunto diversificado de condicionantes socioculturais e assistenciais que atua de forma decisiva para direcionar a escolha final em favor da intervenção cirúrgica.
"Pesquisas mostram que em torno de 70% das mulheres querem um parto normal, porém o Brasil está entre os três países com maior número de cesarianas do mundo. E ouvindo gestantes, puérperas e profissionais de saúde, a nossa pesquisa mostra que essa decisão vai muito além de uma escolha individual da mulher. Então a gente esbarra em obstáculos estruturais, informacionais e relacionais que se retroalimentam e que, num momento de insegurança e de dor, acabam favorecendo e gerando gatilhos para uma cesariana, mesmo sem necessidade", diz.
De acordo com os dados apresentados, a trajetória da gestação é marcada por uma série de influências externas que moldam a escolha da via de parto, incluindo os conselhos de familiares, as orientações das equipes médicas, os relatos de conhecidos e a própria bagagem cultural da paciente. A investigação, que colheu depoimentos de mais de 130 participantes entre grávidas, puérperas e trabalhadores da saúde nas cidades de Belém e São Paulo, revelou que figuras familiares femininas como mães, avós, tias e sogras possuem um peso significativo nessa dinâmica. Somado a isso, os companheiros frequentemente passam a apoiar a intervenção cirúrgica na tentativa de abreviar o desconforto da mulher durante o trabalho de parto, enquanto a indisponibilidade de recursos para o alívio farmacológico da dor induz muitas gestantes a enxergarem a cesárea como o único caminho viável para fugir do sofrimento físico.
O ambiente de atendimento também se mostrou um fator determinante, visto que os hospitais particulares costumam dispor de uma estrutura logística que favorece o agendamento da cirurgia, mesmo quando não há real necessidade médica. Em contrapartida, as mulheres que optam firmemente pelo parto natural costumam ser motivadas pelo desejo de um restabelecimento físico mais ágil, pelo receio dos riscos inerentes a um procedimento cirúrgico ou por vivências anteriores bem-sucedidas. Diante de todo esse panorama, o Fundo das Nações Unidas para a Infância estruturou a iniciativa "Parto Normal: uma escolha que merece respeito", uma ação institucional voltada a fomentar discussões sociais e a democratizar o acesso a orientações sobre práticas de nascimento seguras, humanizadas e que valorizem a autonomia da mãe.
Fonte: www.agenciabrasil.ebc.com.br
|